O livro visa investigar as crenças populares dos camponeses do Friul do sec. VXI ao XVII, traçando continuidades e diálogos entre as práticas encontradas ali e aquilo que se definiu por feitiçaria num contexto cristão, necessariamente ligado a um culto diabólico.
A tese central é a de que a imagem da feitiçaria diabólica foi criada por demonólogos e inquisidores entre os séculos XIII e XV, sendo então difundido no imaginário do povo num mecanismo de adequação das já existentes crenças camponesas ao discurso cristão - o que também cabe, para Ginzburg, na chave da dominação cultural, quando o "discurso culto" da religião católica engloba o "discurso popular" das crenças mais antigas.
Uma análise de vários documentos permite esboçar certas crenças camponesas por trás do argumento inquisitorial. Essas crenças, embora possuam pequenas modificações em diferentes relatos - posto que, por seu caráter oral, tendem a sofrer contribuições individuais ao longo do tempo (97) - podem ser consideradas como constituindo uma espécie de unidade, entendida por Ginzburg como cultura popular.
Para chegar a essa cultura popular, então, o autor propõe uma leitura crítica das fontes partindo de um assunto específico: os benandanti, ou andarilhos do bem, no português. Benandante é o nome dado às pessoas que, nas noites dos Quatro Tempos, saem, em espírito (deixando o corpo adormecido em casa) para lutar contra as bruxas e feiticeiras e tentar garantir, assim, a fertilidade dos campos - tudo isso supostamente a serviço de Deus. Uma outra vertente de benandanti são os seguidores do culto "fúnebre", contando majoritariamente com mulheres entre as suas representantes. Essas mulheres dizem sair em espírito nas noites dos Quatro Tempos para uma determinada procissão dos mortos, que é liderada por uma divindade feminina geralmente ligada à ideia de fertilidade.
Essas crenças, embora destoem dos dogmas da Igreja, não são necessariamente anticatólicas, não pretendem combater a Igreja, nem vão contra Deus. São resquícios de crenças pré-cristãs, de origem germânica e eslava, que, com o passar do tempo, para sobreviverem num mundo cada vez mais cristianizado, englobaram traços católicos - porém, continuaram possuindo características notadamente estranhas a essa doutrina, como as viagens em espírito e o contato direto com entidades.
A Igreja, por outro lado, num esforço hegemônico, tentava enquadrar as práticas dos benandanti ao discurso dos manuais demonológicos, assimilando seu culto, fúnebre ou agrário, a um culto diabólico. Esse processo pode ser percebido nos documentos pela tentativa comum dos inquisidores de direcionar a confissão por meio de sugestões. O uso da tortura física e mesmo psicológica também colaboravam para mesclar as crenças genuinamente camponesas às crenças características do discurso erudito (católico ou greco-romano) que os inquisidores desejavam encontrar ali - tanto para condenar quanto para fins de compreensão. (2)
Esse discurso ligando os benandanti à feitiçaria diabólica, porém, só é plenamente incorporado no imaginário popular no século XVII. Então a ligação entre benandanti e o sabá das bruxas passa a ser comum, o que comprova uma modificação do significado original dessa tradição camponesa pelo discurso teológico da inquisição, que a incorporou em sua própria lógica.
(2) As ilustrações do livro de Geiler para o exército furioso é um exemplo claro disso. Não havendo ligações diretas entre essa crença popular e a cultura erudita, Geiler utiliza uma cena da mitologia grega que não tem nenhuma ligação com o referido culto, a fim de se fazer compreender no mundo erudito. Outro exemplo é a assimilação das divindades germânicas relacionadas à procissão dos mortos, como Perchta, a divindades como Diana ou Vênus.
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